ECOARTIGOS



VISÕES DE FUTURO

Nossa previsão estava correta: é muito difícil para alguns setores da sociedade incluir uma árvore bela e de grande porte num projeto arquitetônico, ainda que ela se encontre rente à calçada. Quando o assunto é arborização urbana, parece que falta um pouco de sensibilidade. A grande maioria da população foi contra o corte do guapuruvu da Júlio de Castilhos. Porém, ele aconteceu. Como prevíamos, o guapuruvu não existe mais.
Profecias? Talvez. Tanto quanto agora também estamos vendo um futuro para o centro de Lajeado: a temperatura subindo ainda mais no verão; lojistas reforçando seus sistemas de refrigeração e ampliando a sombra sintética de toldos para evitar o "castigo do sol"; compradores preferindo outros lugares mais agradáveis ou tomando muito cuidado para não contrair uma gripe devido à diferença de temperatura entre o interior dos prédios e a rua; o centro mais frio, no inverno (é só lembrar que o guapuruvu perde suas folhas, nem todos os dias há sol e as árvores dão um aconchego nos dias frios).
Mas, temos uma visão um pouco mais distante que não está muito nítida: seria possível? Parece a população de nosso município escutando um pouco mais os ecologistas ao invés de enxergá-los como sonhadores, lunáticos e poetas! Parece que estão exigindo a reposição florestal nas ruas do centro! E ainda por cima com árvores grandes como guapuruvus, flamboyans, canafístulas, tipas e ipês! Vão indo em direção à Prefeitura solicitando o plantio, à Câmara de Vereadores exigindo uma legislação que favoreça a arborização e ao Ministério Público conclamando que aja contra o corte desnecessário de árvores! Isto tudo é muito incrível. Só poderia estar no futuro, mesmo... Não conseguimos ver quanto tempo isso vai demorar, mas, quem sabe, se tudo isso não irá acontecer logo ali, nos próximos dias, com a mesma pressa que temos quando queremos ver o paciente ficando curado, as pessoas sendo felizes e o Brasil dando certo. Quem sabe não foi isso que a seiva derramada do saudoso guapuruvu, em sua última utilidade, pôde, enfim, nos proporcionar.

DESPEDIDA EM FLORES

                   Não há muito o que dizer.
                   Para os mais sensíveis, lágrimas rolaram,
                   ao verem os longos braços serem amputados. Em cada mão,
                   um majestoso e derradeiro buquê de perfumadas flores amarelas.
                   Repleto de abelhas desnorteadas. Flores amarelas como o ouro que                    os homens acumulam, na mais despropositada e imedida ganância.                    Há muitos anos fizeram o mesmo, mas o guapuruvu da Júlio mostrou                    que a natureza recupera-se por si só, e até o último domingo ele                    ostentou uma pujante copa , que a cada ano cobriu-se das mesmas                    flores amarelas. A cada ano ofereceu um tapete dourado para os                    amantes da vida passarem, o mesmo tapete que sempre foi                    interpretado por humanos de vida murcha como imundície a ser                    varrida... Dizem os envolvidos na mutilação que o guapuruvu                    atrapalharia o progresso. Lembramos que uma sociedade que não                    consegue incluir árvores nos seus planos mais audaciosos está                    fadada à regressão cultural. Dizem que seu estado fitossanitário era                    ruim, pondo em risco a integridade humana e material. Imaginem se                    matássemos todos os bandidos, pois ameaçam nossa integridade...                    Gostaríamos de conhecer o responsável pela primeira poda drástica,                    que ocasionou as lesões no lenho do guapuruvú. Provavelmente                    alguém que estudou técnicas de poda, mas não soube aplicá-las.                    Desculpem nos se atingimos algumas pessoas com estas palavras.                    Jamais esqueçam, essas pessoas, que privaram a população de                    Lajeado de pelo menos cinco espetáculos anuais, que ocorriam em                    função do finado guapuruvu: a floração exuberante, a frutificação, o                    amarelamento e queda das folhas e as algazarras dos passarinhos.                    O pobre guapuruvu pareceu fazer uma despedida à todos os                    ambientalistas que lutaram por ele. ÁRVORE É SER VIVO!!! Não                    souberam respeitar um ser vivo em meio a um momento tão mágico                    como a sua última floração! Não foram capazes de esperar nem ao                    menos que suas flores findassem naturalmente!
                   Cortaram a energia do show da vida.
                   Provavelmente seguindo
                   cronogramas inflexíveis.
                   Esta atitude foi a mais dolorosa.
                   Se não puderam preservar
                   uma tão majestosa árvore,
                   pelo menos não interrompessem
                   tão estupidamente uma
                   despedida em flores.Uma falta
                   de bom senso que afetou até as
                   abelhas que polinizavam as
                   flores. Resta-nos esperar
                   que os filhos das pessoas
                   envolvidas não venham a
                   trilhar o mesmo caminho.
                   Resta-nos espalhar a boa
                   genética do guapuruvu através
                   das sementes coletadas no ato da amputação.
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                   O guapuruvú deixará saudades e uma grande lacuna no meio urbano                    de Lajeado. (Texto de João Bagatini - 29.10.01)